No dia 29 de março, recebi a notícia de que minha mãe havia sido internada no hospital. Ela sentia muita dor e ainda não havia um diagnóstico. Sem pensar duas vezes, larguei tudo e fui correndo para ficar ao lado dela. Eu tinha a certeza, quase uma esperança ingênua, de que seria algo passageiro, rápido, desses sustos que logo se resolvem. Mas não foi assim.
O diagnóstico veio como um golpe duro: osteomielite aguda em toda a coluna cervical. A partir dali, parecia que cada resposta trazia junto uma nova complicação. Um pulmão severamente comprometido por 50 anos de cigarro. Um coágulo na veia cava. Crises de ansiedade extrema. E, talvez o mais assustador, a paralisação dos movimentos das pernas causada pela infecção.
Em apenas cinco dias, nossas vidas foram viradas do avesso. Saímos de Santiago e viemos para Santa Maria, carregando malas cheias de medo, esperança e incertezas. Desde então, seguimos aqui. Não foi e não tem sido fácil. Cada dia é uma batalha diferente. Há momentos de melhora que nos enchem de fôlego, e quedas que nos testam até o limite.
Vivemos entre altos e baixos, aprendendo a respirar fundo, a ter paciência, a celebrar pequenas vitórias. É uma luta diária e exaustiva e mas também feita força e resistência. Um problema por dia, um passo de cada vez, seguindo em frente porque desistir nunca foi uma opção.
Como muitos sabem, sou filha única. Às vezes penso que fui concebida exatamente para esse momento da vida. Muitos me perguntam: “Mas tu está sozinha aí?”
E eu respondo : sim, estou.
Porque o meu pai, que deveria estar aqui, escolheu outro caminho. Preferiu se colocar no lugar de vítima e se afundar nos próprios problemas, enquanto a realidade exigia presença, força e responsabilidade. As outras pessoas seguem com suas vidas, seus compromissos, seus trabalhos e eu entendo. No fim, essa missão é minha. Apenas minha. E sempre foi.
Meus familiares estão disponíveis se eu precisar. Amigos da família também estão. Eu sei que não estou sozinha ,existe apoio, existe cuidado à distância. Mas estamos longe de casa, e a realidade é dura: a vida não para porque alguém adoece. Cada um segue com suas responsabilidades, seus trabalhos, suas rotinas. E está tudo bem. Não é falta de amor, é o curso natural das coisas. A doença chega sem pedir licença, mas o mundo continua girando.
Tenho o meu marido, que vem nos fins de semana, e sou imensamente grata por isso. Enquanto eu permaneço aqui, firme e forte, ele segura as pontas lá: cuida da nossa casa, da nossa vida, do que construímos juntos. Ele é o apoio silencioso que me permite continuar em pé.
Não é fácil estar aqui todos os dias, sustentando dores, tomando decisões difíceis, sendo forte quando tudo o que eu queria era desabar. Mas sigo. Porque o objetivo que me trouxe até aqui é maior do que qualquer cansaço. Porque alguém precisa ser o porto seguro dela e eu aceitei ser esse porto seguro.
Aqui, sou eu quem está presente todos os dias. Sou eu quem acorda, resolve, segura, espera, chora em silêncio e respira fundo para seguir. Recebo ajuda quando preciso, palavras quando pesam, mas a vivência diária, o cansaço constante e as decisões difíceis são minhas.
Aprendi, nesse tempo, que estar disponível não é o mesmo que estar presente. E presença exige escolha, renúncia e coragem. Estou longe de casa, longe da minha rotina, vivendo um dia de cada vez, fazendo o que precisa ser feito porque isso é o significado de ser adulto, isso é maturidade.
Eu nunca tive que cuidar de alguém. Nunca tinha esperado tanto, nunca tinha exercitado tamanha paciência, logo eu, que sempre fui movida pela ansiedade, pela pressa, pela urgência de tudo.
Os primeiros dias foram especialmente desafiadores. Houve momentos em que pensei que não conseguiria, que meu limite tinha chegado antes mesmo de eu entender onde estava.
Foi aqui que aprendi, na prática, o verdadeiro significado da humildade. Aprendi que não somos nada, que não temos controle algum, e que basta um instante para a vida nos colocar de joelhos. Aprendi também o quanto é essencial cuidarmos de nós mesmos: do nosso corpo, da nossa saúde e, principalmente, da nossa mente, porque sem ela, nada se sustenta.
Aprendi que, mesmo nos cenários mais difíceis, sempre há alguém disposto a ajudar. Que a empatia surge onde menos esperamos. E que os abraços de estranhos, dados em corredores frios, em salas de espera silenciosas, podem ser tão valiosos quanto os abraços das pessoas que amamos. Esse lugar me ensinou a esperar, a silenciar a pressa, a aceitar o tempo das coisas. Me ensinou a ser mais forte, ainda que cansada.
E a minha mãe… ela é uma rocha. É feita de aço. Enfrenta cada batalha repetindo: “Eu estou ótima. Logo vou pra casa, e vou voltar com as minhas pernas.” Mesmo quando tudo ao redor parecia instável, ela se mantem firme, como se a esperança fosse parte da sua própria estrutura.
Quando chegou o momento da cirurgia, lembro das palavras do médico: “A tua mãe é uma bomba-relógio na mesa de cirurgia.” Foi um choque ouvir aquilo. Mas, com a sabedoria que só quem já enfrentou o mundo inteiro ela me olhou e disse: “Eu vou fazer a cirurgia. Não vai acontecer nada.”
E não aconteceu. Ela entrou, venceu mais essa batalha e saiu intacta, desafiando prognósticos e estatísticas.
A minha mãe sempre carregou o peso do mundo nas costas. Sua história é feita de luta, de renúncias, de resistência. E eu vejo em mim o reflexo exato dela. Sou igual. “Inabalável”. Daquelas que choram escondido, que engolem a dor, que seguem em frente sem revelar o quanto machuca, tudo para não preocupar ninguém.
Eu não sei demonstrar amor com abraços demorados nem repetindo “eu te amo”. Nunca foi assim comigo. O meu amor se revela de outra forma, no cuidar constante, no foco absoluto na missão, na entrega silenciosa de quem faz sem precisar anunciar. Eu amo cuidando. Amo permanecendo. Amo lutando.
A minha mãe sabe disso. Ela sabe da minha batalha diária para levá‑la de volta para casa com saúde. Sabe das brigas que eu comprei, das portas que bati, das vezes em que precisei ser firme, endurecer a voz e o coração para garantir melhores condições, mais dignidade, mais chances. Cada decisão difícil foi movida por amor, mesmo quando parecia só cansaço ou dureza.
Talvez eu não diga em palavras, mas demonstro em atitudes que não falham. Estou aqui. Todos os dias. Sustentando, protegendo, insistindo. Porque para mim, amor é isso: é responsabilidade, é compromisso, é não ir embora quando tudo pesa. E ela entende. Porque somos feitas do mesmo tecido: silêncio, força e um amor que não grita, mas sustenta tudo.
A minha empresa tem sido um porto seguro. Em nenhum momento tive dúvidas de que, se eu precisasse, ela estaria ali e está. Porque, apesar dos conflitos e das divergências naturais, é um lugar feito de gente humana. Gente que briga, que discorda, mas que apoia quando realmente importa, a minha gratidão será eterna.
O trabalho tem sido uma âncora. Ele me mantém lúcida, com a cabeça ocupada, me ajuda a não afundar em pensamentos ruins. Trabalhar, mesmo em meio ao caos, me devolve um pouco de normalidade, de identidade, de força. É um espaço onde eu sigo sendo eu, mesmo quando tudo ao redor está desmoronando.
Em meio a esse turbilhão de emoções e aos desafios do dia a dia, ainda precisamos lidar com a falta de noção de algumas pessoas. Mensagens chegam o tempo todo, pedindo detalhes, querendo saber notícias.
Eu entendo que minha mãe é uma mulher muito querida por todos, mas tudo em excesso se torna um problema até mesmo a “preocupação”. Quem realmente precisa saber notícias são a família e os amigos próximos, e esses acompanham a situação diariamente. O que muitas pessoas não percebem é que, toda vez que eu falo sobre o estado de saúde da mãe, eu revivo as dificuldades. E eu não quero, nem preciso, ficar relembrando isso a todo momento.
Também recebo muitas ofertas de ajuda, mas o que nem todos entendem é que, neste momento, não estamos precisando. Se precisarmos, temos a nossa rede de apoio, a minha família e os amigos próximos. E eu me pergunto: se eu aceitasse essa ajuda, essas pessoas realmente largariam a própria vida para estar aqui? Com tudo isso, aprendi uma coisa importante: só ofereça ajuda quando você realmente puder ajudar de verdade.
Também em meio a todo esse caos, conheci duas profissões lindas e profundamente emocionantes: as enfermeiras e as cuidadoras. Elas são verdadeiros anjos aqui na terra. Só quem vive a rotina de um hospital sabe a importância que as enfermeiras têm na vida dos pacientes e também das famílias, eu não seria nada sem as enfermeiras e as cuidadoras.
As cuidadoras da minha mãe são uma bênção que recebemos em um momento tão delicado. Elas são puro amor. Sempre digo que amor é cuidado, e elas cuidam da minha mãe como se ela fosse alguém da própria família. Posso dizer, sem dúvida alguma, que tive muita sorte de encontrá-las.
Outra coisa que tem me deixado profundamente irritada é essa repetição constante de frases como “fica com Deus”, “Deus vai curar”, “é tudo Deus”. Eu não duvido da fé de ninguém, muito menos que exista milagres, também tenho as minhas crenças. Mas o que eu sei, com toda certeza, é que se eu tivesse simplesmente “deixado nas mãos de Deus”, minha mãe não estaria mais aqui.
Também sei que, se ela não estivesse sendo assistida em um excelente hospital, com todos os recursos necessários, cercada por uma equipe fantástica de médicos e enfermeiras, ela também não estaria aqui. Isso não diminui a fé de ninguém, mas deixa claro que precisamos parar de terceirizar tudo para Deus, como se a responsabilidade não fosse nossa. Nem tudo é milagre. Muitas coisas são ação, decisão, luta diária e pessoas fazendo o melhor que sabem e podem fazer. Precisamos assumir as rédeas da própria vida e fazer o que precisa ser feito. E faço questão de deixar registrado o meu reconhecimento à grandiosidade do Hospital Regional de Santa Maria, um lugar que nos devolve a esperança de que o SUS ainda tem, sim, salvação.
Ainda estamos aqui, sem uma data para voltar para casa, matando um leão por dia. Mas sabemos que não há mal que dure para sempre, assim como não há bem que nunca se acabe. Temos a certeza de que tudo isso vai passar e que, de alguma forma, a vida sempre encontra um jeito de ajeitar as coisas.
Talvez tivéssemos mesmo que passar por isso , não sei. O que eu sei é que, quando eu voltar para casa, não serei a mesma pessoa que saiu. Volto mais forte, mais segura e com uma visão completamente diferente das pessoas e do mundo.