Sobre recomeços

Há alguns dias atrás postei sobre a minha saída da empresa três meses depois eu venho falar sobre o recomeço, sobre a busca por novas oportunidades. Venho contar sobre a minha jornada até encontrar um trabalho novo e como estou me adaptando a esse novo desafio.

Atualmente estou estudando a cadeira de filosofia, estudei um cara chamado de Jean-Paul Sartre o cara que representou o existencialismo humano, embora eu não seja fã dele, ele disse algo sobre a liberdade que me faz refletir e que diz um pouco sobre o meu momento, para ele o ser humano é, paradoxalmente, condenado à liberdade. Somos seres feitos de escolhas. E isso faz com que vivemos sempre angustiados, pois quando escolhemos algo, em teoria “perdemos” algo também. Ser livre é projetar e fazer escolhas e isso sempre terá os prós e os contras.

Para Sartre somos seres lançados no mundo de forma livre, cabendo somente a nós constituir a nós mesmos, não deveria haver nada que impusesse ao homem a forma como ele deve agir, e nem quem ele deveria ser. Por isso para eu escolher o meu novo local de trabalho foi muito difícil, pois como saber que é a escolha certa? Como saber o que me encontra nesse novo desafio, e pior ainda como saber que não aparecerá uma oportunidade melhor? Muitas dúvidas poucas respostas, e uma decisão a ser tomada.

Optei então por uma área que eu nunca tinha atuado, fazendo uma atividade que eu tinha conhecimento, já fazia algo parecido, mas não era exatamente o que eu iria fazer. E então eu entro nesse ambiente novo, cheio de desafios, mas com uma oportunidade de crescimento e aprendizado muito grande. E lhes pergunto como vocês acham que foi a adaptação?

Vim aqui escrever este texto dois meses após esse início. Agora imaginem que eu vinha de sete anos exercendo a mesma função, no mesmo ambiente com as mesmas pessoas, o meu trabalho anterior de oito anos também era na mesma área e então eu troco de área, troco de pessoas e troco de ambiente, de quinze anos no mundo do vinho (trabalhando em vinícolas) eu migro para a área da saúde (trabalhar no maior hospital serra gaúcha), respondendo a minha própria pergunta, foi muito difícil, foi apavorante, desafiador, na verdade eu diria desesperador

Eu comecei esse trabalho novo deixando para trás os meus achismos e as minhas convicções de lado, com muita humildade, tirei tudo o que eu achava saber e puxei uma página em branco na minha mente para que eu pudesse escrever e absorver o máximo de aprendizado, para eu desempenhar a minha função e conquistar o meu espaço nesse mundo novo.

Infelizmente a gente não nasce de novo quando começa um novo ciclo, nós talvez nos reciclamos, coisas que são da nossa personalidade seguem conosco, e eu levei a ansiedade para aprender logo, a insegurança e o medo de não conseguir, de não ser boa o suficiente e isso me causou muito sofrimento de chegar em casa, sentar e chorar, mas dessa vez eu deixei o coração e levei somente a razão que ali seria o meu trabalho, então eu chorava o quanto precisava, reagia, colocava um sorriso na cara e foco, força e fé e eu seguia o meu objetivo de que eu só deveria fazer o que eu seria paga para fazer e só daria a minha opinião quando a mesma fosse solicitada, embora algumas opiniões escapassem, é difícil eliminar velhos hábitos.

Como dizia Darwin não é o mais forte, nem o mais inteligente que sobrevive e sim aquele que melhor se adapta, eu comecei o meu processo de adaptação aquele ambiente que olhando em primeira impressão era tão inóspito. E foi muito difícil, na verdade está sendo muito difícil, pois ali naquele ambiente existem pessoas e socializar não é o meu forte, existe um modelo de trabalho que deve ser seguido que foi criado por pessoas com uma percepção extremamente diferente da minha, e este processo deve ser seguido em detalhes e como sabem eu sou pragmática e para mim o diabo mora nos detalhes, e ainda tem o trabalho em si que eu tenho que aprender e entender para exercer as minhas atividades diárias.

Mas apesar de todas essas dificuldades, a vida me agraciou com colegas incríveis e generosos, que não medem esforço para me transmitir o conhecimento que eu preciso, mesmo com personalidades e abordagens muito diferentes acredito que estamos conseguindo nos conectar. Hoje depois de passado um tempinho eu confirmo que pessoalmente eu precisava passar por esse momento para evoluir como profissional, mas principalmente como pessoa. Aqui não é um mar de rosas, confesso que me frustrei em alguns pontos, porém essa frustração aconteceria em qualquer lugar pois toda a mudança gera muita expectativa, e onde existir muita expectativa haverá algum tipo de desilusão pelo simples fato que na maioria das vezes esperamos muito.

Entretando eu sigo aqui, na minha luta, me adaptando dia após dia e subindo um degrau por vez pacientemente (confesso que não sei de onde eu busco paciência, pois nunca tive), porque ser adulto é fazer o que preciso ser feito, e é tu por ti, as tuas lutas serão somente tuas, as dores que sofreres serão somente vividas por ti  e as lágrima que chorares somente passarão pelo teu rosto. E eu estou fazendo por mim, quem sabe um dia as pessoas poderão dizer que tive sorte, mas nunca é sorte.

E aquele Cleide que muitos conhecem tá se moldando, tá sendo mais “normal”, se isso vai ser bom ou ruim, se vai trazer resultados só o tempo dirá, mas eu preciso ter em minha consciência que eu tentei, que eu fiz algo. E eu não deixei de ser eu, eu apenas entendi que para sobreviver em sociedade, mas principalmente no mundo corporativo é preciso ser adaptativo.

Se eu vou ter continuar aqui e ser bem sucedida, se eu vou ter amigos, se eu vou construir uma história aqui dentro ou se vou descobrir que fiz uma escolha equivocada e ter que buscar um novo recomeço isso só o tempo vai dizer, por enquanto eu só estou tentando e dando o meu máximo como sempre, se estou feliz? A felicidade é aquele momento que a gente gostaria que durasse um pouco mais, e um pouco mais e se repetisse, talvez eu tenha momentos desses aqui dentro. Não temos uma vida feliz e sim dias felizes então eu posso dizer que tenho dias felizes no meu trabalho.