Sobre as nossas insatisfações

Depois de meses sem escrever uma linha sequer no meu blog, finalmente encontrei um tempo para falar sobre um tema que tem rondado minhas conversas e pensamentos com frequência: a insatisfação.

Talvez você me pergunte: “Mas Cleide, que tipo de insatisfação?”

E eu te respondo: todas. Aquelas que a gente vive reclamando, lamentando, mas que, no fim das contas, escolhe continuar carregando. Insatisfação com o trabalho, com o relacionamento, com o corpo… essas coisas que nos incomodam, mas que, por algum motivo, aceitamos como parte da vida.

Mas por que somos assim?

Desde cedo, somos ensinados a viver de acordo com as expectativas dos outros. Colocar-se em primeiro lugar é visto como egoísmo. Então, nos anulamos. Fazemos o que não queremos para agradar, para evitar conflitos, para sermos “educados” ou “politicamente corretos”. E quando somos sinceros, viramos os vilões da história. A verdade incomoda.

Vamos a alguns exemplos?

Você está insatisfeito com seu corpo e decide seguir uma dieta. No jantar de família, surgem todos aqueles pratos que você está evitando. Mesmo dizendo que não pode comer, insistem. Dizem que é frescura, que “só hoje não tem problema”. E você cede, para não criar um clima ruim. Mas depois, em casa, se sente péssimo. A questão é: por que não podemos simplesmente dizer “não quero” sem precisar justificar? Por que o desconforto dos outros pesa mais que o nosso?

Outro exemplo: o marido que detesta visitar a sogra, mas vai todo domingo para evitar brigas. Passa a semana mal-humorado, descontando na esposa, como se fosse culpa dela. Não seria mais saudável propor um equilíbrio? Ir menos vezes, fazer algo que ele goste também?

No trabalho, você reclama do salário, da falta de reconhecimento. Mas quando tem a chance de falar com o gestor, diz que está tudo bem. Falar sobre insatisfação no ambiente profissional é necessário. Se nada mudar, cabe a você buscar essa mudança. Trabalhar não deve ser um fardo. Passamos boa parte da vida no trabalho — ele precisa fazer sentido, trazer algum prazer.

Claro, não estou dizendo que a vida será um mar de rosas. Felicidade constante não existe. Mas se, mesmo com os desafios, você acorda motivado, sente-se bem com sua rotina, isso é satisfação. O mesmo vale para os relacionamentos: se, apesar da correria, vocês ainda encontram tempo para conversar, se conectar, se cuidar… isso é um bom sinal.

Sempre haverá algo a melhorar. E isso é ótimo! É o que nos impulsiona a crescer, a evoluir. Mas a verdadeira satisfação vem quando você se escolhe. Quando prioriza seus desejos, fala o que sente, sem medo de julgamentos.

Tem uma frase que gosto muito: “Você é linda sendo você.” E é isso. Seja você. Diga “não” quando quiser. Você não precisa se justificar. Apenas seja honesta com seus sentimentos — e esteja aberta a ouvir os sentimentos dos outros também. Afinal, você também pode causar insatisfação em alguém.

Precisamos nos libertar desse modo de viver que nos foi imposto. A insatisfação é nossa responsabilidade. Mas, muitas vezes, preferimos culpar os outros. Porque mudar é difícil. Mudar exige coragem. E quando você muda, o mundo ao seu redor muda também. Algumas pessoas vão se afastar, outras vão criticar. Poucas vão te aplaudir. E essa rejeição assusta. É preciso ter força emocional para seguir em frente.

Pra encerrar, deixo uma frase de Friedrich Nietzsche que resume tudo isso:

“Nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.”