Por muitos anos, fui o que chamam de “rato de academia”. Cheguei a fazer três treinos por dia: zumba, funcional e musculação. Hoje me pergunto como eu aguentava. Mas, por dentro, nunca estava satisfeita. Sempre achava que faltava algo: estava gorda demais, ou magra demais. A verdade é que eu nem sabia qual era o meu objetivo. Buscava uma idealização do que seria uma mulher bonita — mas, para alcançar essa imagem, sempre parecia faltar alguma coisa: mais peito, mais bunda, pernas mais torneadas… e por aí vai.
Em muitos momentos, senti raiva do meu corpo. Raiva mesmo. Me comparava com mulheres que eu considerava lindas e ainda tinha que lidar com uma sociedade que adora julgar a aparência dos outros. Desde que me lembro, luto com a autoestima. Sempre quis mudar algo em mim. E, quando mudava, já queria mudar outra coisa. Era um ciclo sem fim.
Os anos de 2019 e 2020 foram divisores de águas na minha vida. Tomei decisões difíceis, enfrentei situações dolorosas e entendi, com muito esforço, que a nova vida que eu escolhi não comportava mais a velha Cleide. Comecei, então, um processo profundo de autoconhecimento — difícil, demorado, mas necessário.
E então veio a pandemia. Fui obrigada a parar de ir à academia. Meu primeiro pensamento foi: “Oremos, vou virar uma porca de gorda.” Corri para comprar equipamentos, baixei treinos na internet e me mantive focada. Enquanto estava em casa, consegui manter a rotina. Mas, quando voltei a trabalhar, o tempo e a vontade diminuíram. E percebi algo surpreendente: eu não sentia falta da academia. Na verdade, nunca me senti bem lá.
A academia reabriu, e por várias vezes pensei em voltar. Mas não conseguia. Não era preguiça — sou ligada no 220. Engordei dois quilos e entrei em pânico: dieta, chá, desespero. Foi aí que caiu a ficha: eu tinha evoluído em tantas áreas da minha vida, mas nesse ponto ainda era aquela menina insegura, querendo ser linda para ser aceita, elogiada, vista. E hoje… hoje eu não preciso mais disso. Algo em mim foi preenchido.
Hoje, quando me perguntam: “Você parou de treinar? Por quê?”, eu respondo: “Sim, parei. Porque eu quis. E ponto.” E penso: “Coitada… para ela, as pessoas ainda são só um corpo bonito ou feio.”
Continuo me cuidando, como sempre. Cuido da alimentação, faço caminhadas diárias e, de vez em quando, treino em casa — no meu tempo, no meu ritmo. Entendi que, antes de esculpir o corpo, é preciso cuidar da mente. Antes eu acreditava em “corpo são, mente sã”. Hoje, acredito em “mente sã, corpo são”.
“A beleza começa no momento em que você decide ser você mesma.”
— Coco Chanel
Ainda me incomodo quando ouço: “Tu eras mais bonita antes”, ou “Deu uma engordadinha, né?”. Ainda não cheguei no nível da minha amiga Tati, que faz dieta para engordar (sim, isso existe!). Brinco com ela: “Vai ficar uma baixinha gorda”, e ela responde: “Olha a minha cara de preocupada.” Eu queria ter um pouquinho dessa segurança.
Já passei dos trinta. Os fios brancos aparecem, a flacidez também, as celulites se instalam, o metabolismo desacelera. Mas hoje entendo que tudo isso faz parte. A beleza não acaba — ela se transforma. Talvez o problema não seja o tempo, mas a nossa incapacidade de enxergar outras formas de beleza.
E quer saber? Estou muito orgulhosa de mim ultimamente.
Minha dica? Façam por vocês. Liguem o f*da-se. As pessoas te tratam como você se trata.
“Sim, eu não sou mais a mesma. E que bom que eu mudei. Sim, eu estou feliz — muito feliz — e não vou me justificar para ninguém. Não vou aceitar comentários desagradáveis sobre a minha vida ou aparência. Eu sou a Cleide. Não quero comparações. Não sou igual a ninguém — e nem quero ser.”
“Demore o tempo que for para decidir o que você quer da vida. E, depois que decidir, não recue ante nenhum pretexto, porque o mundo tentará te dissuadir.”
— Friedrich Nietzsche