A introdução alimentar é uma etapa cheia de significados para a mãe e para o filho. O bebê experimenta novos sabores, texturas, sensações, e emoções. Antes apenas o leite era suficiente para alimentá-lo. Agora ele precisa aprender a comer alimentos sólidos, descobrir suas preferências e atravessar essa fase desafiadora e tão importante para seu desenvolvimento.

O conhecimento científico sobre a alimentação do bebê possibilitou a formulação de políticas públicas para alimentação saudável. Tais políticas trazem orientações atualizadas em formato de passos a serem seguidos pelas famílias, visando promover uma alimentação saudável para menores de dois anos.

Ao direcionar nosso olhar para essas recomendações, podemos refletir sobre a linha ténue entre a teoria e a prática da introdução alimentar. O discurso científico preconiza que os bebês recebam somente leite materno até o sexto mês de vida e que, ao completar seis meses, recebam alimentos saudáveis, variados e coloridos (consumindo alimentos de cinco grupos diariamente), frescos e naturais.

Essas orientações podem despertar questões nas mães, como medo, ansiedade, culpa e frustração, que podem interferir na qualidade da introdução alimentar dos filhos, já que é importante manter um ambiente confortável e tranquilo. Na teoria, naturalizamos as orientações nutricionais de maneira que essas sejam percebidas como simples e único modo de ser saudável.

Nessa lógica, seguir todos os passos é bom, saudável e bacana, enquanto não seguir pode ser julgado como fracasso e ruim. Mas será que é isso mesmo? Se refletirmos sobre a realidade da maioria das famílias brasileiras – para quem são destinadas as recomendações – enxergaremos o quão difícil pode ser seguir as regras e manter um consumo saudável.

Primeiro, para amamentar exclusivamente até os seis meses a mãe precisa estar bem para conseguir produzir leite e enfrentar todas as dificuldades da amamentação, como a volta ao trabalho no quarto mês de vida do bebê e a falta de uma sala de apoio à amamentação, e isso não é fácil!

Segundo, para conseguir oferecer diariamente alimentos coloridos, naturais e variados, é necessário ter acesso a esses alimentos. Acesso financeiro e geográfico também, afinal não basta ter dinheiro para comprar se não tiver onde comprar. Considerando que a família tenha acesso e possa oferecer todos os alimentos ao bebê, surge a recusa alimentar. A comida está lá no prato, amassada com um garfo, com os alimentos separados para que a criança conheça as texturas, sabores e cores de cada alimento, do jeitinho que orientamos, mas o bebê não come de jeito nenhum.

O que fazer, já que o bebê precisa comer para crescer e se desenvolver com saúde? São muitas questões envolvidas. De fato, a introdução alimentar é uma fase muito complexa. É importante entender o contexto de cada bebê e respeitar isso. Entender quem tem acesso a quê e trabalhar com as ferramentas que são possíveis em cada caso. E vocês não precisam passar por essa fase sozinhos. Com terapia para ajudar a mãe e o núcleo familiar a enfrentarem os desafios e com técnicas de apresentação dos alimentos de forma mais lúdica e criativa, esse momento se torna bem menos complicado.

Bianca Cristina Camargo Martins – CRN 14100973

Especialista em Nutrição Pediátrica, Escolar e na Adolescência – UNESA
Mestranda em Nutrição – UFRJ – Instituto de Nutrição Josué de Castro – Universidade Federal do Rio de Janeiro


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