ARTETERAPIA EM FOCO

ARTETERAPIA EM FOCO

Iluminar para revelar, colorir para transformar.

Há uma cena que se desenvolve dentro da caverna com duas personagens. Aparentemente aquele ambiente era tudo o que podiam apreender, notando-se que estavam presas a correntes. Mas, eis que uma delas consegue vazar a caverna e chegar próximo à entrada, de onde penetra uma grande luz… Nesse jogo, há pelo menos duas forças aparentemente antagônicas – a escuridão e a luz que cegam. Antagônicas porque perceptualmente diferentes – uma conserva e a outra esquenta, uma retrai e a outra amplia .Mas como dito, as duas cegam. Cegam porque tanto na escuridão quanto na luz são referências extremas de como apreender as coisas. (Leite, 2004, p. 288)

Tendência de todo o ser humano: A  busca pela individuação, busca de sua luz interior. Luz e sombra, o que está escondido na sombra e o que precisa ser revelado de forma que haja um bem estar no relacionamento consigo mesmo e com o outro.

A arteterapia, usando e estimulando a produção plástica, vai desvelando os símbolos contidos no inconsciente coletivo e individual trazendo à consciência as questões pertinentes ao universo do cliente.

O foco deste texto é o uso das cores nesse processo de investigação e caminho em direção ao autoconhecimento.

O processo de individuação, conceito junguiano, não se dá em movimento constante com um diálogo entre o consciente e o inconsciente e nem sempre chegam a um consenso, isto é, concluindo em direção ao self, ao centro de cada um de nós. As questões são trabalhadas de acordo com as situações à medida que vão aparecendo e espontaneamente identificadas pelo cliente.

Esse caminho em direção ao self é gradativo e cada um tem o seu ritmo. O consciente e o inconsciente não se opõem. Eles devem sofrer uma ordenação a partir também de outros aspectos como persona, sombra, anima e animus. A produção de imagens por meio das várias atividades plásticas produzem símbolos que permitirão fazer uma leitura, criar um mapa de viagem em direção ao self.        Philippini (l995)

Ao centro  de nós mesmos, do que realmente somos.

Mensageiros importantes de níveis profundos de nossa psique, os         símbolos contidos nas imagens plásticas e nos sonhos comunicam quase diariamente informações essenciais.

Dentre tantas outras possibilidades a cor é usada para trazer à luz essas informações, esses conteúdos. As cores falam, descrevem um código rico de emoções e conteúdos internos que podem ser identificados nas produções.

A arteterapia usa  diversas outras formas de expressão plástica tais como teatro, música, dança e de acordo com cada uma dessas possibilidades, prioriza o sensorial, a materialidade. A expressão plástica deve ser considerada em todos os aspectos- suas cores, as formas, e volumes.

Níveis inconscientes e profundos da psique então são mostrados, às vezes timidamente, mas que podem servir como documento, informações que levam o ser a estruturar-se, harmonizar-se, sinalizando o caminho da individuação.

A arteterapia estimula o cliente em seu processo de criação, mostrando alternativas nesse  caminhar. Quando isso acontece ele vai se tornando autônomo, a energia psíquica está em movimento, diálogos do inconsciente com o consciente começam a acontecer, a entrada da luz ,que a cor propicia ,vai debelando as sombras e o escondido passa a ser conhecido mostrando que existem possibilidades a serem experimentadas.

Cor é variação de ondulação da luz e provocam sensação cromática e podemos fazer uma bela analogia entre a variação ondulatória da luz com o movimento da energia psíquica.

Segundo Israel Pedrosa, a cor tem existência material: é apenas sensação produzida por certas organizações nervosas sob a ação da luz – mais precisamente, é a sensação provocada pela ação da luz sobre o órgão da visão. Seu aparecimento está condicionado, portanto, a existência de dois elementos: a luz (objeto físico agindo como estímulo) e o olho (aparelho receptor, funcionando como decifrador do fluxo luminoso, decompondo-o ou alterando-o por meio da função seletora da retina, dessa forma, a composição da visão humana de forma bem compreensível.

Explicando a cor temos Pedrosa dizendo:

Cor-luz ou cor colorida é a radiação luminosa que tem como síntese aditiva a luz branca. Sua melhor expressão é a luz solar, por reunir de forma equilibrada todos os matizes da natureza. As  faixas coloridas que compõem  o espectro solar , quando tomadas isoladamente, uma a uma denominam-se luzes monocromáticas.

Cor – pigmento é a substância material que, conforme sua natureza absorve refrata e reflete os raios luminosos componentes da luz que se difundi sobre ela. É a qualidade da luz refletida que determina a sua denominação. (Pedrosa, 1977, p. 17)

Na percepção da cor contam apenas os elementos físicos (luz) e o fisiológico (olho), e na sensação contam os elementos psicológicos do indivíduo que incidem na cor, com todo o seu histórico. Conceito muito complexo que exige atenção especial.  Daí o conceito de que ao observarmos a obra de arte, estamos transformando-a também de acordo com a nossa subjetividade de cor que temos embutida em nós.

Da mesma forma que o corpo e mente, coração e paixão estão intrinsecamente relacionados, podemos também dizer que luz e cor são elementos coexistenciais sendo luz a essência e cor a sua materialização.”

As cores sempre estiveram nos ritos e produções artísticas e simbólicas no decorrer dos tempos. Algumas cores eram usadas somente pelas autoridades reais e ou eclesiásticas representando assim a realeza ou o sagrado.

Da influência da cor, a nível consciente e inconsciente e instrumentalidade no estudo histórico temos a citação de Pedrosa (1977).

Historicamente, muitos dos significados das cores guardam o sentido original enriquecidos com a evolução espiritual dos povos. A cada nova sociedade, os símbolos tornam-se mais requisitados e abstratos, acompanhando de perto o voo da fantasia e das aspirações humanas. (Pedrosa, 1977, p.99)

As cores estão relacionadas com o modo de vida de cada época. Estão presentes em relatos plásticos desde as cavernas, nos  rituais ali descritos com os pigmentos “mais simples e naturais existentes no chão das grutas.”( p. 64 )

Mais tarde nas comunidades tribais, os homens decoravam o próprio corpo, diferenciando através das cores as funções dentro da comunidade. Na arte bizantina observa-se o uso de maior entrada de luz nos mosaicos, decorando a arquitetura da época. Nas construções medievais, as estruturas góticas também propiciam esse exercício de luz e sombra, embelezando a história e a arte com intervalos de luz e cor nos vitrais que contavam e difundiam a religião.

Durante o período barroco, a cor mais uma vez é usada com destaque nas mãos dos artistas como Velásquez (1599/1660), realista com uma luz sombria e tons escuros.

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Velasquez-Velha fritando ovos

Os impressionistas (1880 a 1900) buscavam atingir a realidade por meio da luz e cor. Pintavam ao ar livre tentando chegar o mais perto da luz natural. Como Monet, buscavam “um determinado momento, captando uma luz particular, buscavam luz, tons e sombras o mais próximo da realidade.

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Por do Sol- Monet

 

 

 

Para os pós-impressionistas ,como Gauguim (1848-1903) abandonou o impressionismo e partiu para a pesquisa de cores e simplificação das formas… ,o que de fato importava era a síntese essencial da forma e da cor.” (pág.67 p. 3)

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Duas mulheres na praia-Gauguin

As cores em Picasso representavam o seu estado anímico, tristezas (cor azul), paixão( cor rosa) .

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Nude azul- Picasso

 

Em Guernica , uma de suas obras mais importantes na qual denuncia os horrores da guerra, Picasso usa o preto e branco .

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Guernica- Picasso

Miró, surrealista, viveu na época da guerra e expressou-se com cores alegres.

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Galo- Miró

Percebemos nessa viagem através dos tempos, a presença e uso da luz e sombra e consequente uso da cor, sendo usados como representação de ideais, espiritualidade e estado de ânimo pessoais, contam as suas próprias histórias de forma única e diferenciada.

Conclusão:

A arteterapia  traz a experiência de nos depararmos com a nossa história, através das cores e das imagens.

A arteterapia tem nas cores um rico suporte para uso dos trabalhos plásticos, nas produções imagéticas, revelando e transformando conteúdos guardados ou escondidos no inconsciente. O indivíduo carrega consigo um manancial do inconsciente coletivo e do inconsciente individual. Sua história, sua ancestralidade, todo esse conteúdo deve ser observado pelo terapeuta, com facilitador na jornada de seu cliente rumo à individuação.

Os binômios luz/sombra, luz/cor estão presentes no setting terapêutico de forma análoga, discutindo a sombra do inconsciente, colocando luz para que as questões subam à consciência, dinamizando a energia psíquica, fazendo com que o indivíduo chegue ao autoconhecimento e bem estar para que, com uma vida harmoniosa, caminhe rumo à sua singularidade de ser o que é.

Por Lidia de Jesus

  • Arteterapeuta Junguiana

  • Terapeuta floral de Bach

  • Pesquisadora de si mesma

Referências
Chendo,Izabel. Iluminar para revelar, colorir para transformar-Arteterapia métodos e processos.Organizado  por Angela  Philippini- 2ª ed. 2009
Pedrosa,Israel, Da cor à existência, Senac- Rj 1077
Imagens-google

Arteterapia Autoconhecimento Jung Psicologia junguiana Relacionamentos Sobre Viver terapia Terapia floral

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Lidia de Jesus (Arteterapeuta) e Grazielle Jesus (Psicóloga). Empenhadas em falar (e ouvir) sobre o VIVER e contribuir para a construção de novas ações que possibilitem melhorias na qualidade de vida das pessoas.

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